2 de jun. de 2020

MILLÔR EM PEDACINHOS - HIPOCRISIA SOCIAL E POLÍTICA

"Em antigos sistemas políticos, os nobres parlamentares, disputando com seus pares-em-poder, não podiam prometer sem sofrerem pressão - dos seus rivais no dia-a-dia político - por realizações. De tempos em tempos leiloava-se o Parlamento, os lances sendo feitos, como hoje, com promessas, estas, porém, com um mínimo de garantias. Depois de um século ou dois o processo ficou tão difícil que os Senhores acharam menos cansativo e perigoso dar ao povo, em vez de reformas, o direito ao voto. O engodo é perfeito. A Opinião Pública que, atingindo nobres e ricos, acabava restringindo esses velhos líderes 'naturais', desapareceu sintetizada num escrotínio (sic) periódico. Os novos líderes, 'revolucionários', conseguiram, sem má consciência, e com perfeita impunidade, dizer hoje uma coisa e amanhã outra, sem serem cobrados depois. Pois estão ratificados, senão santificados, pela Urna e pelo Voto.

ADVERTÊNCIA A LUIZ ANTÔNIO GRAVATA, GEÓLOGO, COLECIONADOR, INFORMATA. 1979"

Fonte: O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr, pág. 140.



28 de mai. de 2020

SERÁ QUE ESSE TREM AÍ NUM PODDÁ CERTO, SÔ? EDIÇÃO EM 13/06/2020.

Francamente, não sei. Penso que estamos atravessando o cenário mais estapafúrdio que já vi em minha vida (e olha que passei pelo suicídio do Getúlio, pela renúncia de Jânio Quadros, pela ditadura, pelo longo período de planos econômicos mal sucedidos, resultando em ações de indenização vendo muitos cidadãos, respectivos autores, morrerem na espera por sentença final ao longo de trinta anos,  inflação descontrolada e, mais recentemente, pelo mensalão e pelo petrolão, com um "juiz lalau", uma jorgina de freitas e um apartamento guardando 51 milhões de reais de contrapeso). A pandemia, como o gol para o Parreira, é mero detalhe.
Mas temos de admitir: o que está acontecendo agora é muito mais amplo. Escaramuças falando em AI-5, com posteriores alegações de mal-entendido; declarações de intenção de não mais cumprir determinações do STF,... um pandemônio.
Mas quem sabe, gente? É... Não perdemos por esperar.
Há alguns dias, assiti a um vídeo em que dois cidadãos falavam em um tal artigo 142. Pelo que ouvi, falavam da Constituição; pelo jeito que falavam, deram a impressão de que conhecem mesmo o babado.
Daí, fui à Constituição e encontrei lá o tal artigo, que transcrevo:


Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

Como o § 1º desse artigo remete às normas para emprego das Forças Armadas, a uma Lei Complementar, aventurei-me. Encontrei lá, no art. 15:

§ 1º Compete ao Presidente da República a decisão do emprego das Forças Armadas, por iniciativa própria ou em atendimento a pedido manifestado por quaisquer dos poderes constitucionais, por intermédio dos Presidentes do Supremo Tribunal Federal, do Senado Federal ou da Câmara dos deputados.


Pois bom, como dizia o Panteleão do Chico Anysio: o Presidente alardeia que sua autoridade está sendo desrespeitada; poderá entender que isto ofende a lei e a ordem; não precisa pedir autorização a quem quer que seja para empregar as Forças Armadas, por hipótese contra o STF. O STF poderá estar entendendo que o Presidente está querendo sobrepor-se à Constituição, e que isto afronta a Lei Maior e a ordem. Na qualidade constitucional de guarda da Constituição, o Presidente do STF - maior autoridade do Poder Judiciário - poderá, em favor da Constituição, pedir ao Presidente que empregue a seu favor as Forças Armadas?  O Presidente poderá dividir as Forças Armadas em duas, uma para combater a seu favor, contra o STF, outra a favor do STF, contra si? E o Terceiro Poder? Ficará à margem, assistindo a briga para ver o que sobra, ou escolherá lado?
Penso que nem os constituintes, nem os emendadores da Constituição, pensaram na possibilidade de um Poder brigar contra outro Poder. 
Gente! Vai dar filme para Hollywood nenhuma botar defeito!

EDIÇÃO EM 13/06/2020: Pelo andar da carruagem (qualquer dos poderes pode mobilizar, mas o legislativo e o judiciário têm de pedir ao presidente - e o princípio da igualdade, sô?), veremos se vai prevalecer a força do direito ou o direito da força.

Imagem: Fala Goiás.

24 de mai. de 2020

SERÁ BIRRA MESMO OU INCAPACIDADE DE FAZER "MENOS PIOR"?

Assim que assisti à apresentação pública daquela singular "reunião de ministros", falei, alto e bom som, cheio de orgulho profissional: as reuniões de Estado-Maior do Batalhão PM que comandei há mais de trinta anos, davam de mil a zero nessa aí. Naquelas reuniões, quatro Seções, apenas, quando qualquer assunto estava na pauta, esse assunto era posto em mesa, cada titular de Seção relatava a situação do assunto, no que aquela deveria e poderia compartilhar e participar. Das reuniões de Estado-Maior de PMMG (seis seções, à época), de que tive oportunidade de participar, há quase quarenta anos, a metodologia era a mesma, o Chefe da Seção que detinha a responsabilidade principal sobre a matéria fazia um relato geral, cada um dos demais situava o tema nos limites de sua Seção e o primeiro capitaneava a elaboração de estudo para orientar e sugerir alternativas de decisão, incorporando as informações das outras três.
Após a tal reunião ministerial, pensei: pôxa, sô, (palavra que o presidente poderia usar para substituir uma outra que usa abundantemente), será que em quarenta anos a tecnologia de administração pública não evoluiu, ou até regrediu? O tema programado não foi desenvolvido. E o que foi, foi mal.
Hoje, vejo, pela Tv, o presidente dizendo que não irá mais fazer reuniões ministeriais; que vai ser uma reunião para assistir ao hasteamento da Bandeira, depois um cafezinho coletivo e todo mundo liberado. Isso é que é patriotismo! Disse que doravante só irá conversar com ministros individualmente.
Birra? Incapacidade para mudança de rumo?
Pode ser que dê melhor resultado do que aquela de 22 de abril (terá sido a descoberta, pelos brasileiros, de um "brasil" até então desconhecido?). Qualquer outra forma teria oportunidade de dar, também. Mas poderá ocorrer de um ministro ser interpelado sobre um assunto e dizer que precisa conhecer as posições de outros ministros, sobre matérias das respectivas competências, para raciocinar sobre a amplitude do trabalho a realizar.
Estamos, há muito tempo - e bota muito tempo nisto - em um Brasil que, quando uma coisa não está funcionando com vantagem (de qualquer natureza), a receita genérica é acabar com aquela coisa. Buscar reinventá-la, para colher melhores frutos é ideia rara. Principalmente em princípio de mandato, quando é absolutamente necessário desconstruir antecessores e colocar-se acima de tudo o que já terá sido feito antes (ex.: "nunca antes na história deste país").

Imagem: CP CANAL DO POVO.
https://www.canaldopovo.com/2018/11/opiniao-meninos-birrentos-podem.html


UBERLÂNDIA 1991 COM ILUSTRAÇÃO DE MAURÍCIO RICARDO


Maurício Ricardo, ainda muito jovem, brindou-me com algumas ilustrações, no "Correio do Triângulo", em Uberlândia. Disse-lhe, algumas vezes, que deveria sair da cidade, que já ficara pequena para ele. Nem se ligava nisso. Exultei quando o vi e li via internet. O Maurício que admiro está no mundo, sem precisar sair de Uberlândia. 


22 de mai. de 2020

A LEI DO DISTANCIAMENTO - DEEPAK CHOPRA


"No distanciamento está a sabedoria da incerteza... na sabedoria da incerteza está a libertação do passado, ao conhecido, que é a prisão dos velhos condicionamentos. E na mera disponibilidade para o desconhecido, para o campo de todas as possibilidades, rendemo-nos à mente criativa que rege o universo."

Citação do autor:

"Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho,
intimamente amigos, o ego e o Eu habitam o mesmo corpo.
O primeiro ingere os frutos doces e azedos da árvore da vida; o segundo tudo vê em seu distanciamento."

- Mundaka Upanishad



FONTE: Deepak Chopra em "AS SETE LEIS ESPIRITUAIS DO SUCESSO", págs. 73 e 75.







21 de mai. de 2020

DENTRO DE UM HOSPITAL TODO MUNDO É CARENTE


LEVE UMA FLOR









Quando for ao hospital,
leve uma flor.
Pode ser branca, lilás ou amarela.
Ofereça-a ao primeiro que encontrar,
seja quem for,
pois qualquer um, ali,
precisará  urgentemente dela.

Se for dá-la a um doente crônico,
que ela tenha o perfume mais suave e penetrante,
para livrá-lo, ainda que por um instante,
do cheiro dos remédios
que, insistentemente, sente
impregnado em seu corpo
e em sua mente.

Se for dá-la a uma criança,
que a flor cheire a esperança,
que vontade de viver
ninguém tem mais
do que uma criança.
Se for menino,
que o leve pelos campos
a cavalgar corcéis imaginários,
soltar papagaios, balões, folguedos vários.
Se for menina,
que lhe adorne a trança da boneca,
ou que a possa trazer
presa ao cabelo,
num laço muito enfeitado;
ou guardá-la, com desvelo,
dentro de um livro,
junto ao bilhete
do namorado.

Se for dá-la a u'a mãe,
que a flor seja uma criança
com cheirinho de marcela.
Uma criança que ela
faça dormir, com enlevo,
faça brincar, com ternura,
faça crescer, com esperança
de ser eterna criança.

Se for dá-la para um pai,
que seja um gol do Pelé
jogando na seleção.
Ou um gol de mão, até,
em jogo de decisão.
Porque o gol - foi-lhe ensinado -
é o momento maior,
que deixa o pai liberar
emoções de toda sorte,
que guarda abafadas no peito,
já que não tem outro jeito
pois um pai tem de ser forte!

Se for dá-la a um ancião
(e por que não?),
seja ela firme rochedo
em que ele possa sem medo,
lançar ansiosa âncora.
Se for fraco o ancorar
e a ânfora se esvaziar,
que a flor possa agora, então,
tornar-se - qual feiticeira -
mar manso pra navegar,
sem que lhe pese o timão
na viagem derradeira.

Se for dá-la a um doutor,
realce toda a beleza
que a pureza de uma flor
pode conter.
Não deixe que suas pétalas
em inúteis moedas se transformem,
para que seu tilintar não lhe repita
a odiosa rotina
de vender, a todo dia,
aos que vivem de temer a morte,
a sua medicina.
Faça a beleza da flor transportar, apenas,
na evocação dos prados,
as preces dos curados.

Se for dá-la à enfermeira,
faça-a flor alvissareira
dos cuidados dos doentes.
Que cada pétala seja
uma conta de rosário
passada, de dedo em dedo,
pelos bebês, no berçário,
pelos pais, nos escritórios,
pelas mães, nos oratórios.

Se for dá-la a um poeta,
a flor deve ser completa,
misturar de tudo um pouco:
pai, mãe, filho, namorada,
lírico herói, vilão, louco,
trocando o mundo por nada.
Na haste, cordas de lira,
nas pétalas, um diadema
em que o poeta se mira
e toma a flor como tema.

Se for dá-la a um demente,
diga-lhe, tão somente,
que a flor será, exatamente,
qualquer coisa que imaginar que seja:
estrela cadente, lua,
paraquedas, picolé...
... uma torta de cereja...
Não conte a verdade nua!
Não lhe diga que é uma flor!
Pois quererá comê-la
ou saltar com ela
pela janela.

Se for dá-la para mim,
prefiro que seja um jasmim
que cheira cheiro de noite,
de flautas, violões, luar,
de balcões, onde donzelas
em camisolas - tão belas! -
venham meu canto escutar.
Mas se for rosa amarela
ou outra rosa qualquer,
será mui bem recebida.
Mas ponha, sempre, atenção:
não leve tristeza sentida,
comiseração ou dor.
Leve apenas uma flor!

Imagem: Rosângela_Aliberti.
https://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=6108

20 de mai. de 2020

O VELHO E BOM STANISLAW PONTE PRETA


Como dizia Stanislaw, iniciando suas crônicas, "vinha eu rua abaixo, comendo minhas 
goiabinhas...", quando senão quando
lembrei-me de uma de suas crônicas. Os livros que escreveu não estão mais comigo. Minha filha mais velha, devoradora de livros não localizou. Para não perder a memória, transmito o que me lembro da crônica. Se localizar, publico no original.

Escreveu "a flor dos Ponte Preta"* que o cara acordou, de manhãzinha e, ainda espreguiçando-se, ouviu a pergunta da mulher: o que foi que aconteceu com você? passou a noite todo agitado, gesticulando, falando alto coisas que eu não entendia, remexendo-se na cama... qual é o babado, afinal? O cara, depois e beber  um cafezinho com língua, que a esposa lhe trouxera, disse: minha filha! muito esquisito! tive um pesadelo muito esquisito! Esquisito? (o Millôr disse que a gente deve fazer os diálogos assim, sem travessão nem nada, que os leitores irão identificar quem está falando; participem da experiência). Ah, minha filha! Estava saindo para trabalhar e fui tomar o ônibus (o Stanislaw disse que era o lotação mas muita gente moderna nem saberá o que era isso), fui tomar o ônibus e vi que o motorista era militar e que o trocador era também. Segui meu caminho de boa (é óbvio que não está "de boa" no texto original). Entrei em um bar para um café com leite. O atendente era militar, o caixa também. Ao entrar no prédio onde trabalho, dei de cara com o encarregado da portaria usando uniforme militar e, no elevador, encontrei um ascensorista no mesmo modelo. Comecei a ficar preocupado, voltei à rua e resolvi entrar em uma igreja nas proximidades, para meditar sobre aquela situação estranha. Era hora de missa. Pronto! O padre era militar, o coroinha também. Meu Deus!!!...
Homem sonhando com um desenho animado de... | Premium Vector #Freepik #vector #pessoas
A mulher interrompeu: mas teve uma hora em que você riu. Ri, ora! À noite, voltando para casa, passei em frente a uma buate e lá estava um cartaz: "Hoje, sensacional streaptease com o major Pereira".



* A expressão "a flor dos Ponte Preta" era uma auto identificação.

Retrato de Sérgio Porto: Memórias da Ditadura.
http://memoriasdaditadura.org.br/escritores/stanislaw-ponte-preta-sergio-porto/stanislaw-ponte-preta-destaque/

Imagem de pesadelo: freepik.
https://br.freepik.com/vetores-premium/homem-sonhando-com-um-desenho-animado-de-pesadelo_1723530.htm

19 de mai. de 2020

NÃO QUERIA, JEITO NENHUM, ESTAR NA PELE DO CELSO DE MELLO

Batata quente na mão direita, pepino para descascar na outra.
De fato, penso que ter de decidir, no que diz respeito ao conteúdo da gravação da tal reunião ministerial de 22 de abril, entre dar amplo conhecimento (princípio constitucional da publicidade) ou liberar apenas parcialmente o conteúdo (pruridos da AGU e da PGR, quanto à possibilidade gerar conflitos de vários alcances). Tem de enfrentar, ainda, o princípio constitucional da igualdade, invocado por Moro, posto que a PGR tem o vídeo completo e ele não.
Como todo palpiteiro de plantão, já emiti minha opinião: "divulgar integralmente a tal gravação será oferecer à Nação - reduto dos eleitores - uma oportunidade única de conhecer o que e como são tratados os problemas que a atingem". Está em https://cadikimdicadacoisa.blogspot.com/2020/05/nao-sei-o-que-o-ministro-celso-de-mello.html.
Só volto ao assunto porque uma dúvida assaltou-me: se S. Exa. liberar total, uma metade da sociedade irá repetir "FORA STF"; se liberar apenas em parte, a outra metade gritará "FORA STF".
Não queria, mesmo, estar na pele de S. Exa..


Imagem: STF.
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=436079

AS POSSIBILIDADES DO BEM E DO MAL (AJUDA NO FRANCÊS AÍ, BECA!)


Ouvindo música clássica, ind'agorinha (mineirês clássico), piano, orquestra e coral, um lançar d'olhos para a tela li, no rodapé: "quand l'amour e la force s'unissent, l'homme jouit de faveurs divines.". Como só companhava o som, imaginei que era da letra que o coral cantava.
Uma forcinha de um francês que estudei há mais de 50 anos, traduzi por "quando o amor e a força unem-se, o homem desfruta das graças divinas". É claro que fui conferir no tradutor, por causa da palavra "faveurs", que traduzi como "favores" e interpretei como "graças". Encontrei "faveurs" = "favoritos". Isolei sem o "s" - "faveur" e encontrei "favor". Ainda isolado, voltei o "s" e encontrei "favoritos". Como não conheço o singular de "favorito", em francês, não conseguindo usar o tradutor, achei melhor expor minha ignorância e pedir ajuda à Beca (Beatriz Isoni), minha sobrinha, versadíssima, ou a outrem, que possa e queira ajudar. Mas acho que o sentido que o autor dá à canção é, mesmo, "quando o amor e a força unem-se, o homem desfruta das graças divinas."
Essa prosopeia toda, achando que a maioria das pessoas achará inútil, serviu-me para buscar um contraponto, que acho nada agradável, mas que penso ser oportuno:




"Quand l'haine et la force s'unissent, l'homme est l'objet de toutes le méchancetés de le démon." - Quando o ódio e a força unem-se, homem é objeto de todas as maldades do demônio. (corrige aí, Beca).


Imagens:
Anjo: treze.

Brasinha: De Rerum Natura.