27 de set de 2012

SAUDADE


O amor, quando ele vem,
Vem chegando de mansinho,
Entra em qualquer buraquinho,
Quase sem deixar sinal.
Entra pra boca co’os beijo,
Pros ouvido co’um gracejo,
E entra até pro nariz,
C’um indiscreto perfume de flor.

E, depois, sem-cerimônia,
Sem que a gente se dê conta,
Vai, no maior atropelo,
da gente tomando conta,
desde a ponta do cabelo
até o dedão do pé.
Aí, então, o feiticeiro
vira gigante, e até,
dominando corpo e mente,
fica maior do que a gente.
Não cabe em si, de contente.
 
O amor, quando ele vai,
Sai arrebentando cerca,
Violento, impetuoso,
Cego, surdo, rancoroso,
Atropela, pisa, esmaga,
Estraçalha e, qual adaga,
Rompe as entranhas e o peito,
Deixando rombos enormes.

Ah! Mas deixa uma saudade, sô...
Uma saudade tão grande,
Bem maior que o próprio amor,
Que, se a gente manda embora,
não consegue ela sair         
Pros rombo que o amor deixou.
E é por isto que na vida dos poeta e cantadô
Só tem, a bem da verdade,
Um tantão assim de amor
E um outro tantão de saudade.

Marco Antônio Comini Christófaro

Foto: Olhos Líquidos
http://olhosliquidos.wordpress.com/2010/09/29/saudade-3/