31 de mar de 2012

FUTEBOL E VOLEIBOL: POR QUE AS DIFERENÇAS?

A resposta parece mais que óbvia: porque futebol é futebol e voleibol é voleibol, uai! Simples assim? Para mim, não.
É claro que o voleibol, sem a característica do corpo-a-corpo, tende a não ser violento, ao passo que ocorre o contrário com o futebol: jogo de contato (como dizem os especialistas), as oportunidades de encontrões, ocasionais ou não, aparecem com muita freqüência.
Quanto à disciplina dos atletas, em campo (não confundir com violência, excesso de faltas, etc.), o voleibol dá de goleada. No futebol, a gente assiste a transgressão de mais de uma modalidade da Regra 12: desaprovar com palavras ou ações as decisões do árbitro é falta merecedora de advertência, com cartão amarelo; o jogador será expulso e receberá cartão vermelho, quando empregar linguagem ofensiva, grosseira e obcena.
O que mais vemos, no que diz respeito a desaprovar as decisões do árbitro, é o jogador gritar expressões como "porra", "caralho" e outras mais ou menos grosseiras (a gente escuta tudo, captado por microfones distribuídos estrategicamente), sem que o juiz se mostre contrariado. Parece que faz parte do espetáculo.
Já no voleibol, basta um jogador, que não seja o capitão do time, reclamar, pode considerar-se muito feliz se for apenas advertido. Se levar cartão, resulta em marcação de ponto para a equipe adversária. Já vi jogador reclamar, receber amarelo (ponto para o adversário), ficar nervosinho e jogar a bola no chão, com toda força, levar outro amarelo (mais ponto para o adversário) e, em seguida, o vermelho. Tudo sem estardalhaço.Aliás, lembro-me de um jogo de futebol de salão (ainda não era futsal), em Belo Horizonte. Raul Abdala apitava. Marcou uma falta. O faltoso deu um salto e, abrindo os braços, gritou: "Mas, 'seu' juiz!". Escandalosamente. Raul Abdala, sem olhar para o faltoso, virou-se para a mesa, mostrou quatro dedos (o número da camisa do jogador) e fez, com as mãos, o sinal de substituição. Voltou-se e continuou seu trabalho, logo depois que foi feita a substituição do escandoloso. Simples, assim. Foi a segunda melhor ação de colocar alguém fora de jogo. A melhor foi do meu irmão Tito, apitando jogo de várzea. Marcou uma falta. O jogador disse que não fora. Confirmou a falta. O jogador mandou-o tomar banho. Calmamente, retrucou: "quem vai tomar banho é você". O rapaz entendeu, tirou a camisa e mandou-se mais cedo para o chuveiro.
Há um aspecto que considero mais importante a pensar sobre as diferenças entre o futebol e o voleibol. No primeiro, há o endeusamento do goleador. Como se só ele determinasse o tal de "resultado positivo". Goleiro pode fechar o gol. Vai dar, no máximo, 0 x 0, salvo se for goleiro artilheiro. A defesa pode ser impecável, que não terá feito mais do que a obrigação. E o goleador pode errar durante todo o jogo que, se, ao final, fizer um golzinho de 1 x 0, é aclamado como herói.
No volei é diferente: excluindo pontos de saques e de bloqueio, todos os demais pontos precisam da participação de pelo menos dois jogadores (quando o levantador faz ponto de segunda). Na maioria das vezes, é necessária a participação de três jogadores. Meio time! Só uma boa recepção facilita um bom levantamento, que dá ensejo a uma finalização eficiente. Não é à toa que o Serginho, líbero, já foi premiado como o melhor do mundo. Não foi na posição. Foi o melhor de todos. Sem marcar um ponto!
Aí é que vejo a principal diferença. No futebol, há um time. No voleibol, uma equipe.

EDIÇÃO EM 13/02/2016: Atualizando: atualmente, as reclamações no voleibol são punidas com cartão amarelo, sem contar ponto para o adversário. Só no caso de reincidência aparece o cartão vermelho, aí, sim, valendo ponto para o oponente.


Foto de futebol: Opinião FC.
http://opiniaofc.blogspot.com.br/2010/04/chicharito-em-manchester.html
Foto de Serginho: UOL Esporte . Volei
http://www.google.com.br/imgres?hl=pt-BR&biw=1920&bih=898&gbv=2&tbm=isch&tbnid=C_SYke26peraNM:&imgrefurl=http://esporte.uol.com.br/volei/ultimas-noticias/2010/06/25/operacao-tira-libero-serginho-da-selecao-brasileira-na-liga-mundial.jhtm&docid=Kg5zlrOqH630nM&imgurl=http://e.i.uol.com.br/esporte/volei/2010/01/15/serginho-libero-da-selecao-masculina-e-do-brasil-volei-clube-1263547212113_300x300.jpg&w=300&h=300&ei=8od3T6TOCcHrggec8JzhDg&zoom=1&iact=hc&vpx=759&vpy=128&dur=1394&hovh=225&hovw=225&tx=109&ty=140&sig=111589266420214433538&page=1&tbnh=127&tbnw=132&start=0&ndsp=50&ved=1t:429,r:4,s:0

GRANDE MÍDIA - MÁ VONTADE COM OS MINEIROS

File:Escudo minas tenis clube.jpgAssisti, ontem, pelo canal Sportv, à transmissão do jogo de voleibol masculino entre Florianópolis e Minas Tênis. Assisti, também, a um espetáculo de má vontade da grande mídia para com os mineiros. Muita gente fala disto e a gente pensa que é chatice de mineiro. É não! Mineiro, quando quer ser chato, não fica choramingando. Arranja sempre uma ironia. A grande mídia tem, mesmo, uma pinimba com os mineiros. Não sabemos do motivo. Será que " nóis aborrece eis"? Será que não gostam desse nosso jeitim minero de sê?
Foi escandaloso. O Florianópolis venceu os dois primeiros sets. Arrasou no primeiro. Dava a impressão de que ia ser 3 x 0, com balaiada. No segundo, a coisa melhorou tiquim. Mas o Florianópolis venceu bem. O narrador era todo elogios para o Floripa. Superlativou à vontade: bloqueio senssssacionaaaal! saque arrrrrasaaaadooor! Enchia a boca. Narração muito vibrante.
Aí, o Minas Tênis começou a virar. Ah! Agora não havia tanto elogio, tanta vibração. Parecia que o estoque havia acabado. Foi impressionante como mudou o tom da narração. Os superlativos foram desaparecendo, a voz não merecia ser prejudicada por aqueles gritos entusiasmados.
O Minas virou tudo e acabou nas semifinais. 3 x 2.
Do narrador, um frio "O Minas está nas semifinais".
Prestenção, gente! Mineiro também compra, também consome. Consome os produtos que vocês anunciam, consome os serviços de vocês. Lembrem-se - vocês que trabalham no esporte - que negro não podia jogar futebol profissional. Teve clube que fechou o departamento de futebol, para não ter de admitir negro (Como não admitir? João Saldanha conta que, em uma excursão do Botafogo, algúem perguntou se o time de uns gringos que estavam no mesmo hotel seria bom. Alguém respondeu: deve ser não. Não tem crioulo!). O primeiro clube a liberar crioulo foi o Vasco da Gama. Por que? Porque era um clube de comerciantes e comerciante não deve esnobar ninguém. Depois dizem que português é burro. Eu, hein? Pensem nisto, senhores narradores. Será que não querem vender pra nóis?

Imagem: Criação de Pedro de Carvalho Gomes.
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Escudo_minas_tenis_clube.jpg

30 de mar de 2012

OS PALADINOS DA MORAL E DOS BONS COSTUMES

Mais um senador envolvido em escândalo. Já se fala em expulsão do partido e em cassação. Diz-se que está envolvido com banqueiro de jogo do bicho, entre outros jogos. Há notícias de recebimento de dinheiro substancioso. Parece que foi em período de campanha.
Como as coisas rodam na rede, recebi uma postagem de que "Cachoeira e Demóstenes" armaram  mensalão. O link era do blog Terra Brasilis (http://profdiafonso.blogspot.com.br/2012/03/cachoeira-e-demostenes-armaram-o.html?spref=fb). Está lá que "O Mensalão, maior escândalo político dos últimos anos, que pode ser julgado ainda este ano pelo Supremo Tribunal Federal, acaba de receber novas luzes". E que "“Estou convicto que Cachoeira e Demóstenes fabricaram a primeira denúncia do mensalão”, disse o ex-prefeito em entrevista ao 247". Não sei o que seja "247". O Terra Brasilis faz referência a "Brasil_247, via Com Texto Livre"; procurei e achei "ContextoLivre" (http://contextolivre.blogspot.com.br/2012/03/cachoeira-e-demostenes-armaram-o.html). Não tenho tempo, agora, de conhecer melhor qualquer dos dois blogs. No ContextoLivre tenho certeza de que voltarei. Se der, irei também ao Terra Brasilis.
Mas e o porquê desta leréia toda?
Porque acho estranho que, quase na hora de o STF julgar o mensalão, o tal "maior escândalo político" recebe "novas luzes". Bacaninha, não é? E joga o foco da denúncia em cima do senador Demóstenes. Poderá mudar tudo e adiar o julgamento, para esclarecer as tais "novas luzes" que, em vez de clarear, lançam escuridão?
Tadim!
Tadim do Roberto Jefferson! Cassado de graça?
Tadimdimim, que pensava, todo o tempo, que fora o Roberto Jefferson quem armara o mensalão!
Tadim do povo, que, há mais de dez anos, ouve conversa de malandro pra delegado!

Foto: Último Segundo.
http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/rj/mafia-do-jogo-do-bicho-bancou-churrasco-em-batalhao-da-pm/n1597441715825.html

29 de mar de 2012

ADEMILDE FONSECA - RAINHA DO CHORINHO

Não convivi muito com a obra dela. Quando comecei a me interessar por choro foi no final da década de 1950. E, segundo li (tive de ir buscar alguma informação), Ademilde fez um intervalo, na década de 1960. Mas lembro-me de algumas interpretaçãoes da cantora: Pedacinhos do Céu, Tico-tico no Fubá, Camundongo, Urubu Malandro, Brasileirinho... Nenhuma interpretação dela impressionou-me mais do que Brasileirinho. Fantástica!
Mesmo sem conhecê-la bem, valorizo muito a participação na MPB, principalmente no choro, gênero considerado genuinamente nacional, raiz da música popular brasileira. O choro é o campo dos grandes instrumentistas-compositores - Abel Ferreira, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Dino Sete Cordas, Altamiro Carrilho, Raul de Barros, Lina Pesce... Ademilde fazia com a voz as nuances que os instrumentistas executavam.
Agora, Ademilde Fonseca faz parte do Grande Coral. Billy Blanco disse que "quando morre um sambista no céu é motivo de festa, porque os anjos, que são da seresta, se alegram também"
Estou certo de que irei buscar conhecer mais participações da Ademilde. Vou enriquecer-me..
E quem quiser que vá buscar a grande interpretação dela, em
http://www.youtube.com/watch?v=rLwiBB_1dOo

Imagem: Licia.
http://liciafabio.uol.com.br/atitude/so-no-chorinho/

28 de mar de 2012

MILLÔR FERNANDES

Falei em Millôr hoje, pela manhã, antes de saber da notícia de sua morte. Conversava com um amigo, sobre a existência de pessoas que se referem a determinados fatos ou determinadas organizações, sem conhecer os fatos ou as organizações, e não vão buscar informações pertinentes. Falam como se soubessem de tudo. Lembrei-me de que Millôr criticava o dístico da Bandeira do Estado de Minas Gerais: Libertas quae sera tamen. Falava do texto, tirado de um poema de Virgílio

"Libertas, quae sera tamen, respexit inertem,"

dizendo que, na Bandeira, deveria ser apenas libertas quae sera, e que, portanto sobrava a expressão tamen que, segundo Millôr, significava "todavia". Não vou descer a detalhes, porque não sou latinista. Quem quiser mais detalhes veja na página http://pt.wikipedia.org/wiki/Liberdade_ainda_que_tardia 
(bacaninha o método da globo de sonegar notícia e mandar a gente para o g1.com). É que há quem discorde de Millôr, porque  Alvarenga Peixoto (propositor do dístico), Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga (que aprovaram a proposta) eram, todos, notáveis latinistas. E há quem concorde com Millôr.
Fato é que Millôr levantou uma baita lebre, de pessoas criativas que acabam entortando a criação. Muito comum, mais do que a gente pensa.
Lembro-me, sempre, de Millôr, porque lia muito o Pif-Paf, não a revista que ele criou, mas uma página dele na revista O Cruzeiro (faz tempoooo....). Dizem que houve pressão da Igreja Católica para que o Millôr fosse dispensado da revista (foi). E que houve dois motivos. Primeiro, a publicação de um poema dele, que começava assim: "Admiro-vos, Senhor, mas não à vossa obra. Que paraíso é esse que tem cobra?". Segundo: Millôr apresentou Pelé vestido com o manto de Nossa Senhora Aparecida, com coroa e tudo. Não vi nisto qualquer ofensa religiosa. Naquele momento, Pelé era um Deus para grande parte dos brasileiros. Fazia até milagre!
Millôr sabia buscar conflitos, vê-se bem. Arranjou um com Zeus - o poderoso deus grego. Conta a lenda que Prometeu, por ter roubado o fogo do Olimpo, foi castigado por Zeus, e acorrentado a um rochedo à beira mar. Todos os dias, vinha um abutre comer um pedaço de seu fígado, que se regenerava. E o abutre voltava e voltava. Millôr comentou que ninguém perguntou ao abutre se gostava de fígado.
Essas coisas repetem-se, de modos diferentes, mas com conotações semelhantes. Vendo TV, programa de "pesca esportiva", um protagonista, logo após devolver o peixe ao rio, comentou que aquela espécie é muito boa para pesca esportiva. Pergunta-se: chamaram o peixe para brincar? Perguntaram se ele gosta daquela brincadeira? Millôr me ensinou algumas coisinhas, sabe?

Foto: R7 Entretenimento (desculpe aí, sô: notícia fúnebre é entretenimento?).

http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/morre-jornalista-millor-fernandes-aos-88-anos-20120328.html

PARA SEMPRE


dividas-do-flamengo-5
Patrícia Amorim, Presidente do Clube de Regatas do Flamengo, dizendo confiar na volta do "Imperador":



"Ele sempre será nosso".



Oswaldo Montenegro, em "Sempre não é todo dia":

Eu hoje acordei tão só
Mais só do que eu merecia
Eu acho que será pra sempre
Mas sempre não é todo dia

Foto: CULTURAMIX.COM
http://economia.culturamix.com/dinheiro-2/divida-do-flamengo-e-desafios-financeiros-em-2013

CONCEITO MINERIM

Meu professor de filosofia (zill anos atrás), Artur Versiani Veloso, ensinando lógica:





"Hipote é uma coisa que num é. Mas a gente faz de conta que é, pra ver, se fosse, cumé qui ficava."

27 de mar de 2012

O INFERNO DO FUTEBOL

No dia 17, falamos sobre o céu e o inferno do futebol. Lembramos de um dos personagens mais importantes do futebol brasileiro - Garrincha - vencido por nenhum adversário, mas por si mesmo.
Ontem, o programa Bem Amigos tratou do filme Heleno, lançado para celebridades no dia 12 de março, e que estará à disposição de pobres mortais, dentro em poucos dias. Por coincidência, Heleno de Freitas foi, também, jogador do Botafogo, Rio de Janeiro. E foi craque, segundo toda crônica.
Na minha idade, é claro que tive informações muito superficiais sobre Heleno de Freitas. Basicamente, de que era muito craque, e de que era destrambelhado. Ah! E que morreu em um hospício, em Barbacena, Minas Gerais.
Vocês irão ver o Rodrigo Santoro, em treinamento, matando bola no peito e chutando para o gol, de sem-pulo, com muita elegância. Como fazia o craque. O detalhe do clima frio será bom que vocês confiram.
Como não podia deixar de ser, os comentaristas abordaram carreiras de jogadores de futebol, com altos (salários) e baixos (comportamento e desempenho, depois da fama). Chegaram a citar dois, nominalmente. Quanto a um deles, o assunto já escapuliu da crônica esportiva: a revista Veja noticiou, nesta semana, que uma senhora famosa, proprietária de uma casa bacana, em uma capital, está tendo problema com o imóvel. Conta que "os antigos vizinhos de madame fizeram um abaixo-assinado para expulsar de lá o seu inquilino,...", um jogador de futebol que não deixa as pessoas dormirem, com as festas que promove "madrugada a dentro".
Os comentaristas falaram, em geral, que dirigentes de clubes "passam a mão na cabeça" de jovens craques, quando começam a "entortar" o comportamento. Sugerem contratos de produtividade: ganha se jogar.
Legal, não é? Além de administrar as finanças do clube, de administrar o futebol, irão ter de administrar os registros de jogos e ausências, das farras, bebedeiras, das faltas aos treinos e tratamentos de lesões...
Preferi o comentário de Vítor Belfort, pugilista em evidência, e que participava do programa. O patrimônio do atleta é seu corpo. Tem de cuidar dele, para ser eficiente. Acrescentou: no nosso meio, se estiver fora do peso, não luta. Se perder quatro seguidas, acabará descartado.
Não se falou, no entanto, de uma coisa que me "encafifa": não são só os dirigentes de clubes que "passam a mão na cabeça", não. Cronistas, comentaristas, narradores, muitos deles "enchem a bola" de jovens, mesmo quando não se comportam bem. Penso que é porque representam publicidade e acessos garantidos. Vejamos: Edmundo era bad boy, Romário era marrento, e assim por diante. Dois craques de categoria inegável, mas que tiveram momentos de carreira conturbados. Sempre prestigiados pela imprensa.
Comentou-se, no programa que, na Europa, não há jogadores "entortados". Alguém citou dois, mas logo o Galvão disse que estavam falando de jogadores de vinte anos atrás. Prefiro não ir à Europa (meus limites são Presidente Olegário, Guimarânia e Lagoa Formosa). Podemos ficar por aqui, no nosso voleibol multi-campeão. Por que será que não se vê jogador de volei "entortado"? Serão mais bem formados? Penso até que sim. Mas os dirigentes também devem ser mais exigentes (ou, pelo menos, deixam ao Bernardinho a tarefa de exigir).
Estamos chegando a uma Copa do Mundo, no Brasil. Penso que precisamos mudar algumas coisas no futebol. Geral.

Foto de Heleno: O JOGO DE ZANIN
http://ojogodezanin.wordpress.com/2012/03/19/1263/

25 de mar de 2012

NAS HORAS VAGAS...

Há muito não saía a passear na roça. Fizemos isto hoje, minha sogra, minha cunhada com o namorado, minha mulher e eu. Passamos por um lugar onde havia um final de atoleiro, com algum barro, ainda, mas sem risco de o carro ficar por ali. Minha mulher lembrou-se de uma viagem nossa, à Serra da Canastra. Havia chovido muito e, em uma subida, estrada de terra, um baita atoleiro. Estavamos em um Gol muito bom, mas que achei insuficiente para a parada. Falei que não daria para subir. Minha mulher não aceita uma desistência, sem experimentar. Resultado: ficamos atolados. Por sorte, havia uma fazenda, a uns cem metros. Enfrentamos a chuva e o barro e fomos em busca de ajuda, que apareceu na figura de um boiadeiro, com uma junta de bois. Atrelamos os bois ao carro e conseguimos seguir.
O boiadeiro não quis cobrar. Demos-lhe uma grana, que não sabemos se valia, se era muito, se era pouco...
Pensando da passagem, lembrei-me de uma estória que Dona Ephigenia - minha mãe - me contara, há muito tempo. Uma cena parecida com a nossa, um mineirim com uma junta de bois e lá está o carro livre e solto. Precim camarada. O dono do carro perguntou ao mineirim se plantava, se criava animais, afinal, o que fazia. Mineirim falou que tirava o sustento dele daquela atividade: ajudar incautos a sair do atoleiro (atividade que muitos banqueiros, agiotas e quejandos fingem que fazem). Aí, o dono do carro perguntou se muitos carros atolavam ali. Mineirim disse que dava pro gasto, que não era todo dia mas que, no frigir dos ovos, sobrava algum no final do mês. Foi então que o dono do carro perguntou: você não faz nada nas horas vagas? Mineirim foi taxativo:
- Faço sim, uai! Eu jogo água no atoleiro!

Foto: notapajos.com
http://notapajos.globo.com/lernoticias.asp?id=45326

24 de mar de 2012

NOVELA É NOVELA. E É DO DONO DELA.

Acabou a Fina Estampa. O que me agrada mais em novela são os desempenhos de muitos dos atores. É muito legal ver pessoas comuns "encarnarem" tipos que a gente nem acha que existem, mas que estão por aí. Também o trato de assuntos pouco conhecidos na intimidade (apesar de muito falados), como a mulher maltratada pelo marido e que custa a tomar atitude, ou a discussão sobre maternidade biológica e maternidade de ventre. Algumas coisas desagradam-me, em grande parte das novelas. Por exemplo: ou sei nada de direito ou a Globo escorrega no tomate porque quer. É recorrente. A mocinha lá, mãe biológica da Vitória sair da sala dizendo que o juiz falou que não tem recurso. Em geral, juiz não diz isto (nunca vi um juiz dar uma sentença e dizer que é irrecorrível). Nas súmulas vinculantes do STF que encontrei, não vi referência ao caso. Como não se trata de caso isolado, penso que a Globo foi no vai da valsa. Acho mau, porque a sociedade acaba sendo mal informada (a tv deveria ser um instrumento de informação?). Também não achei legal a cena do Pereirinha, no mar, na cena final. Das maluquices da Teresa Cristina, qualquer coisa se poderia esperar. Mas será que o Pereirinha queria chegar a Mônaco naquela casquinha de noz, mesmo sem tempestade? Sei lá! Nunca fui marujo. A cena de insanidade não bate com o caráter passado dele, em toda a trama. Mau caráter, safado, boêmio, depravado... Pode caber tudo. Mas meter-se a desafiar Netuno?!!
Mas o que estarei fazendo eu aqui? Se não estiver satisfeito, que escreva uma novela, uai! A novela é do Aguinaldo Silva, não é? Então, que eu deixe de ser intrometido e que ele faça o que quiser com a novela dele, ora!

FOTO: ondagringa.com
http://www.ondagringa.com/2012/02/yuri-soledade-surfando-insanidade.html

23 de mar de 2012

CHICO ANYSIO - GÊNIO DO HUMOR


Penso que Chico Anysio é o maior nome do humor, no Brasil (ainda é, porque sua obra segue). Não vou dizer que sua morte deixa um vácuo na arte, porque, infelizmente, parece que já não tinha capacidade física para exercer. E o que já fez está aí, muito bem feito. Prefiro comentar algumas poucas coisas que me impressionaram muito (poucas em relação ao volume de sua obra, que - toda ela - me impressionou sempre e muito).
Primeiro: há muitos, muitos anos, o Chico Anysio publicou uma crônica, na revista Realidade: Brasil, o país do amanhã. Sutil, não dizia o país do futuro. Do amanhã, mesmo. Começa a crônica dizendo que o Papa é uma das figuras mais respeitadas no mundo inteiro. Mas isto porque mora em Roma, e no Vaticano. Se morasse no Brasil, iria fazer propaganda de Coca-cola, dar chute inicial no Fla x Flu... Enfim, avacalhava com o Papa, se viesse para o Brasil. Melhor: avacalhava com o Brasil. Premonição? Pode ser. Quando o Papa veio ao Brasil, uma emissora entrevistou um cara na favela do Vidigal. Perguntaram-lhe o que achara do Papa. Resposta: gente fina, amizade! (um "gente fina" cheio de bossa e malandragem). Nessa mesma crônica, o Chico conta que a polícia descobriu que um pai-de-santo era responsável por vários crimes. Foi ao morro, para prender o elemento. Chegando ao barraco, viram que o homem estava incorporado. O subinspetor não se mancou: "Olha, 'seu' Ogun, trata de subir porque eu preciso encanar seu cavalo". Toda a crônica era de um humor muito fino e retratava tipos nossos, em várias atividades, como polícia, futebol, malandragem... Lamento muito não ter guardado a revista, que saiu de circulação há quase quarenta anos. Gostaria de reler a crônica. Procurei na rede mas ou não tem ou fui incompetente.
Curti muito, também, o vinil, nos anos 1970 - com versão posterior em CD, que tenho ainda - Baiano e os Novos Caetanos. Chico Anysio e Arnaud Rodrigues. Muito divertido, muita arte. Véio Zuza, Selva de Feras (uma sanfoninha com meia dúzia de notas, mas capaz de fazer um forró a noite inteira), O Urubu tá com raiva do Boi, Folia de Reis... Bacana demais!
Coisa que me incomodou foi encontrar um livro escrito pelo Chico Anysio em um sebo. Comprei por merreca. Título: Eu sou Francisco. Conta a história dele e, de quebra, do rádio e da televisão. Penso que, em vez de um sebo, deveria freqüentar as bibliotecas das faculdades de comunicação.
Nesse livro, Chico conta que foi ser artista porque não tinha tênis. Disse que a turma chamou para jogar uma pelada. Ele falou que não podia, porque não tinha tênis. A turma mandou ir buscar em casa, que dava tempo. Foi. Chegando lá, encontrou a irmã Lupi, que saía, acho que com o noivo, para fazer um teste na Rádio Guanabara. Chamou-o para ir junto. Foi trocar de roupa, rapidinho e acompanhou a irmã. Foi aprovado e virou artista. Tudo porque não tinha tênis.
Mil personagens, fico com Albert Roberto. O canastrão que - segundo o Da Júlia, interpretado por Lúcio Mauro - "quando diz que não garava, não grava mesmo!" Gosto do Alberto Roberto porque acho que, em muitas oportunidades, deveríamos imitá-lo: "eu não garavo."

FOTO: http://globointernacional.globo.com/Asia/Paginas/academia-do-riso-chico-total.aspx

22 de mar de 2012

COMENTÁRIO DE VERSOS: TECNOLOGIA É TECNOLOGIA!


O modo de fabricação pode ser antigo. Mas só agora vi a notícia. Há criadouros de jacaré do papo amarelo, no nordeste, para exploração comercial da carne, do couro e até de partes do corpo, como cabeça e patas, para obras de artesanato. Mas tem um “plus” (bacaninha, hein?): estão usando urina dos animais da espécie, na indústria de cosméticos, para fixação das essências.
Aproveitei para emendar os comentários de versos:


O papo é o papo amarelo,
jacaré que, antigamente,
dava couro pra curtume.
Diz-se que, recentemente,
é criado com esmero,
enriquece muita gente
dando urina pra perfume.
Madame, toda cheirosa,
impressiona na paquera,
sem saber – também, pudera!
que, usando patchouli,
pensando que é poderosa,
anda levando pro leito
um perfume que é feito
De nada mais que xixi.



 Imagem de jacaré: AS PELADAS E OS PELADEIROS 2010.
http://peladeiros2010.blogspot.com.br/2010_04_25_archive.html

COMO VAI O TRÂNSITO AÍ?


Você que está vendo e ouvindo notícias assustadoras sobre acidentes de trânsito, diga aí: como vai o trânsito, no lugar onde você mora (vive?). Moro em uma cidade com mais de 150.000 habitantes (o IBGE pensa que é menos, e até que a população diminuiu em 2011). O trânsito já está muito complicado.
A notícia recente do atropelamento de um homem, seguido de morte, provoca julgamentos de todos nós. Mas isto é porque a pessoa que atropelou (famosa, pelo menos por enquanto, somente pela filiação) é muito rica, tem carrão, etc. Aí, todo mundo acha que, só por isto, é culpado.
Não! Não estou defendendo o rapaz. Isto já é missão do Dr. Márcio Thomaz Bastos.
Penso que o que deve preocupar mais, e mobilizar os as pessoas é a situação geral do trânsito.
É ver se os governantes estão preocupados, de verdade, com educação para o trânsito nas escolas (campanhazinhas eventuais na televisão não têm ajudado). aliás, diga-se: as medidas que têm sido tomadas pelo governo estão resultando na perda da guerra.
As notícias que geram comoção afastam todos nós do tema principal - há necessidade de segurança para todos e relativamente a todos os infratores. Não podemos individualizar os elementos que constituem a segurança no trânsito.
Temos de mudar muito em nós.
Por exemplo: o anti-publicitário volta a atacar: Estou falando bem da propaganda do Kia. Olha que relativamente a carro, eu mal e porcamente sei dirigir. Não entendo de atributos, qualidades, defeitos... Absolutamente ignorante. Nem venho badalar a marca, porque não tenho competência. Venho falar bem da propaganda. Limita-se a mostrar o carro e dizer dos atributos que a fábrica ou o propagandista acha ótimos.
Em geral, outras marcas mostram a potência, a capacidade para manobras radicais, e a beleza e o charme de felizes proprietários (uau!), e outras que tais. No final, hipocritamente, a meu ver, lançam um chamado de "obedeça as leis do trânsito" ou o indefectível "se beber, não dirija" .
E nós, consumidores, queremos esses atributos - potência (indicando velocidade potencial), manobras radicais, etc. - para sermos felizes proprietários.
Penso que é preciso mudar muita coisa para invertermos as tendências no trânsito.
Pessimismo? Acho que não. Os espaços continuam do mesmo tamanho mas as quantidades de veículos (motos, carros, caminhões) e de pessoas aumentam muito. Qualquer hora vai travar.
PS.: Como estamos, agora, na década do trânsito, vou voltar ao assunto, nos próximos dez anos.
Bom dia!

Foto congestionamento: CONTROVÉRSIAS, DÚVIDAS E BOBAGENS
http://ldiamante.blogspot.com.br/2010/01/imagem-da-semana_20.html
Foto do metrô: Blog do A. Italo
http://blogdoaitalo.blogspot.com.br/2010/09/sao-paulo-o-purgatorio.html

20 de mar de 2012

SÓ COISA DE BACANO. E NÓS VAMOS CONTINUAR PAGANDO...

A bronca braba de hoje é com as licitações fraudadas. Gravações de negociatas envolvendo muita grana. Caras de pau, depois de filmados (sem saber) mexendo com os pauzinhos, prometendo mundos e fundos, explicando didaticamente as mutretas, põem-se de anjinhos, dizendo que sua firma, com mais de vinte anos de história, pauta seus procedimentos institucionais na mais perfeita lisura...  Paladinos da moral e dos bons costumes aparecem, imediatamente, nos governos, nos parlamentos, em toda parte, prometendo punições, cancelando contratos (feitos com firmas que já estavam na berlinda, quando assinados), muito Dom Quixote, ... Bacana paca.
Logo depois, para aliviar a pressão, vem a notícia de mafiosos, na Itália, comportamentos semelhantes, muita grana desviada, formação de quadrilha... Que bom! Não é só no Brasil!
Nem é só nos tempos atuais. Aparece muito mais porque temos TV, internet, equipamentos de gravação sofisticados... Mas há muita história para contar.
A música popular brasileira é excelente contadora de histórias.
Lembrei-me de “Boca de Siri”, música que ouvi cantada por Jorge Veiga, na minha juventude (faz tempo, sô!). Achei duas homônimas, uma de Wilson Batista com G. Augusto (está no youtube, nada a ver com este assunto). A outra de Gordurinha, cantada por Jorge Veiga. Não consegui achar a letra desta, para conferir a memória. Vai como me lembro: 


Tem coisas que a gente vê
Mas que tem que ficar calado
Fazer boca de siri
Pra não ficar encrencado

...................................................................

Conheço um cara que tem cadillac
E tem dinheiro lá no Banco do Brasil.
Tem uns dez apartamentos
E casas tem mais de mil.
O que ele anda fazendo
Francamente ainda não vi.
Eu desconfio que ele é lá da CEXIM.
Pelo não ou pelo sim
Eu faço boca de siri.

NOTA: CEXIM, se não me falha a memória, era a Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil.
Dá para perceber que a coisa é antiga.
Hei de vencer!

18 de mar de 2012

VOLTANDO AO SARAU, PENSANDO EM FUTEBOL

Hoje, às oito e meia, reprise do Sarau. Volto a ouvir. Só ouvir, porque estava fazendo coisinhas. Foi quando o Carlinhos Lyra falou sobre um disco gravado pela Nara Leão. Ele havia levado material a ela, para compor o roteiro. Lá estava "Diz que eu fui por aí", do Zé Keti. Quando Lyra chegou à gravadora, viu que a música não estava no disco. O produtor disse que não era boa, que não iria "emplacar", essas coisas. Se não disse, poderá ter pensado que não era comercial, que não vendia. Lyra virou fera: Nara, tira qualquer das minhas músicas e põe essa aí. Nara ouviu e "Diz que fui por aí" arrebentou.
Não são poucos os casos em que algo rejeitado pelos especialistas foi ao mundo e fez sucesso.
Para quem não sabe, Garrincha foi rejeitado no Flamengo. Nem deixaram que ele treinasse.
Quando chegou ao Botafogo, primeiro treino, marcado pelo Nilton Santos - a Enciclopédia. Terminou o treino, Nilton Santos aproximou-se de um diretor e disse: contrata esse cara aí porque eu não quero dar vexame no Maracanã. É o próprio Nilton quem conta isto. E mais: logo depois de ser submetido a teste psicológico individual, na seleção de 1958, Nilton Santos voltou-se para o examinador e disse: doutor, o Garrincha não vai responder nem uma dessas perguntas que o senhor me fez. Mas não corta ele não, porque ele joga bola pra burro.

17 de mar de 2012

SARAU - COISA DA ANTIGA

Assisto regularmente ao programa Sarau, do Chico Pinheiro. A ênfase é para música antiga, algumas até "fora de moda". É uma pena que o programa não seja levado à tv aberta, em horário compatível. O horário da tv por assinatura é algo incômodo: seis da manhã, onze da noite... As repetições ajudam, sem muito motivo para entusiasmo, sendo uma delas no domingo, às oito e meia. Só para quem procura, mesmo. Não há oferta mais agressiva.
Estamos fartos de ouvir que "não vende". É um jargão gasto, para tentar justificar a falta de cuidado com nossas raízes culturais. Sabemos que a juventude não se liga muito naquilo que podemos chamar de "música clássica brasileira". Como se ligar, se não lha oferecemos?
Essa história de "não vende" parece-me balela. Sempre que se oferece música antiga vejo pessoas que gostam. Chico Buarque, Caetano, Djavan, Milton Nascimento - todos já estão no panteão da música antiga - enchem as casas de espetáculos. Mas já caem naquele espaço das minorias - minorias que também devem ter suas preferências atendidas.
Ainda há alguns redutos da "música clássica brasileira". Alguns produtores já começam a identificar espaços. Pequenos, ainda, mas com tendência a crescer. Não acredito que tome a dimensão das baladas e das festas de rodeio. Nem me parece bom, nem tenho inveja.
Um fato que me tem agradado é a edição de vários livros sobre músicos e compositores brasileiros. Pode ser uma coisa ainda tímida, mas está evoluindo.
Hoje, às seis e meia da manhã, assisti ao Sarau. O tema era Nara Leão. Falou-se de um livro biográfico. Não o vi ainda. Não sei se já foi lançado. Mas estou de olho.
Sei que, dentre os jovens, já existe um nicho de apreciadores e praticantes da "música clássica brasileira". O Ministério da Cultura está promovendo um concurso para homenagear o centenário do nascimento de Luiz Gonzaga. É uma belíssima iniciativa, só que passageira. Decide-se o concurso, as obras são levadas a palcos, livros, etc., e volta a obra do Lua a ser coberta pelo manto do esquecimento. Com Adoniran Barbosa (2010) foi assim.
Penso que, constituindo-se elemento forte da cultura brasileira, os grandes compositores de todos os tempos - os atuais, inclusive - deveriam ter espaços financiados pelo Ministério da Cultura nas emissoras de rádio e de televisão. Afinal, o MinC financia tanta coisa... Não precisa ser como na Rádio Inconfidência de Belo Horizonte - a brasileiríssima - que dedica seus espaços à nossa música popular. Foi através dessa rádio que formei minha memória musical.
Só a oferta ampla da "música clássica brasileira", principalmente para crianças e adolescentes, desde a escola, será capaz tornar nossa memória musical uma coisa dinâmica, viva, portanto. A forma consagrada é, indubitavelmente, aquela adotada pelas escolas de samba - desde antes dos tempos do Samba do Crioulo Doido, no qual Stanislaw Ponte Preta salientava a pouca escolaridade dos compositores de sambas de enredo: transmissão da cultura, ao vivo, de geração para geração. Rildo Hora reportou isto muito bem, no samba "Os meninos da mangueira":


"E a velha guarda se une aos meninos lá na passarela,
abram alas que vem ela, a Mangueira toda bela; ...
e onde é que se juntam o passado, o futuro e o presente,
onde o samba é permanente, na mangueira, minha gente".
É muito desconfortável que uma Escola de Samba seja capaz de manter viva sua cultura (sabe-se das dificuldades financeiras dessas entidades, ao tempo em que esse samba foi composto; hoje, não sei) e o Ministério da Cultura não ser capaz de fazer o mesmo com a memória nacional.
Nota dissonante na pesquisa que fiz (gosto de conferir a memória): vi em um site que os autores da música são Tom Jobim e Chico Buarque. Minha memória lembra de Rildo Hora. E o crédito é dele no site terra.mus (www.letras.mus.br).
Sou obrigado a citar Nei Lopes [sambista muito invocado, escritor das coisas dos negros e do samba no Brasil, incluindo Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africano (2005), Partido-alto, Samba de Bamba (2005), Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (2004) e Novo dicionário Banto do Brasil (1999)], no samba "Coisa da Antiga" com Wilson Moreira, voz de Clara Nunes (há um crédito para Nilze Carvalho, como cantora, parece-me; minha memória de autoria é dos dois citados):

"Hoje mamãe me falou de vovó, só de vovó,
disse que, no tempo dela, era bem melhor,
mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão,
tinha-se mais amizade e mais consideração,
disse que, naquele tempo, a palavra de um mero cidadão
valia mais que, hoje em dia, uma nota de milhão,
disse, afinal, que o que é, de verdade, ninguém mais hoje liga,
isso é coisa da antiga".
Foto: A Morte na Historia.

O CÉU E O INFERNO DO FUTEBOL

Sou apaixonado por futebol - como, de resto, milhões de brasileiros. Nunca fui torcedor fanático. Torcia para o Atlético Mineiro, mas ia ao Mineirão ver o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Piaza, Natal, Raul (por que a gente vai se esquecendo do goleiro, gente? só porque ele, no máximo, empata de 0 x 0?), Zé Carlos, Hilton Oliveira... E, quando jogava com time "estrangeiro", torcia pelo "inimigo" Cruzeiro. Já há algum tempo, assisto a jogos de futebol, mas não torço mais. Há muitos dirigentes na contra mão da ética, muito investimento burro altíssimo (assim como acho difícil torcer pelo Brasil, que vejo em situação parecida).
Podem dizer que é saudosismo de velho. Mas o futebol não é o mesmo de antanho (existe, viu? está esquecido). Ouvi um saudosista dizendo que, atualmente, jogador não "mata" mais a bola. Deixa bater nele, cair a uns três metros na frente e corre atrás. E não é por falta de espaço. Já vi craque "matar" bola, de costas.
Mudou muito, também, o homem jogador. A origem permanece a mesma. Humilde, pobre, sem escolaridade para a condição de ídolo... Há exceções, claro. Dr. "Sócris" era médico; Haroldo, lateral esquerdo do velho Atlético Mineiro, formou-se em medicina; Afonsinho, que jogou no Botafogo, há muito, estudou medicina, formou-se e exerce a medicina.
Uma profissão em que só é necessário saber jogar, para tornar-se ídolo. Injusto? Penso que não. Afinal, o que se pode exigir de um profissional é que saiba exercer a profissão, e que se dedique a ela. A paixão do torcedor leva a atitudes absolutamente incoerentes, relativamente ao "ser amado". Se o seu ídolo quer buscar melhor condição, se há risco de ser transferido, é logo taxado de "mercenário", com conotação pejorativa. Mercenário é quem trabalha por dinheiro. Então, todos somos. Ser profissional, na minha opinião, é viver "de" e "para". De futebol e para o futebol.
Aí é que a porca torce a respeitável caudinha. Viver "de" é ótimo! Viver "para" é que são elas. Toda profissão tem seus "poréns". Médico, advogado, lixeiro, policial... Em tudo há dificuldades que hão que ser enfrentadas, em nome de "viver para".
Na profissão de jogador de futebol, o lado "bom" é tão oposto ao lado mau, que alguns acabam entortando a profissão. A idolatria, as "marias chuteiras", os convites para baladas (depois, quem convidou reclama que o jogador está jogando mal porque é farrista), a grana da publicidade, tudo isto oferece ao jogador um modo de vida que é atrapalhado pela necessidade do "para": treinar, concentrar-se, alimentar-se bem, evitar bebidas alcoólicas e outros "estimulantes". Sexo eu não sei. O Romário falava que não bebia, não fumava, não dava, nem usava droga. Que seu negócio era sexo e que isto não atrapalhava. A realidade mostrava que, já antes do final da carreira, Romário apresentava-se mal, fisicamente, algumas vezes. Noitada, mesmo que só de sexo, cansa.
Um dos fatores determinantes de entortar a carreira é o valor dos salários. Em clube grande, só se houve falar em pelo menos centenas de milhares de reais. Uma pessoa disse-me, certa vez, que o Ronaldo ("Fenônimo", como disse um torcedor, abordado por repórter) ganhava demais. Achei que não. Disse a ela: você vende seu trabalho para uma pessoa de cada vez; o Ronaldo vende cada gol para milhões de pessoas, ao mesmo tempo, no momento em que o faz, e para outro tanto, nas matérias televisivas, no mundo inteiro. Penso não ser justo as marcas patrocinadoras faturarem a grana de grande parte dos torcedores, sem remunerar o objeto de paixão.
Ocorre que a vida "com muito" é um convite aos execessos, ao exibicionismo, e quejandos. Esses fatores são os que levam o jogador de futebol, ao mesmo tempo, ao céu e ao inferno. Temos vários exemplos por aí. Mas vou citar aquele que poderia ter estado no mesmo patamar do Pelé (muitos acham que está): Garrincha. Acho que, se tivesse levado vida regrada (não precisava ser de santo), teria estado, sim, no nível do Pelé. Tecnicamente, penso que esteve. Fez vários milionários, transferidos para outros países: Vavá, Paulo Valentim, Dino, Gino... Eram bons, todos eles. Mas tinham um ponta que os deixava na cara do gol. Garrincha foi decisivo, como Pelé, na Copa de 58. Foi quase que isoladamente decisivo, na Copa de 62, depois que Pelé saiu machucado. Fez gol até de cabeça e de falta (não eram sua especialidade, já que a vocação era de garçon). Garrincha - dizem muitos autores - levou vida desregrada. Muito chegado a um rabo de saia e à "marvadeza". Isto abalou fortemente sua saúde. Morreu pobre, com a solidariedade de uns poucos amigos e admiradores.
As "escolinhas" de futebol poderiam orientar aqueles que só vêem no futebol a galinha dos ovos de ouro, mas não vêem os gambás rondando.

15 de mar de 2012

NOVELAS - A DIDÁTICA SOCIAL APROVEITÁVEL

As novelas são entretenimento de grande parte dos amantes da televisão. Aliás, desde a era do rádio. Muita gente fala mal mas assiste. Também assisto. Gosto de algumas coisas, de outras não. Vou falar apenas do que gosto.
Gosto, principalmente, das interpretações dos artistas. Chego a achar muitas delas admiráveis.
Quanto às tramas, só nos levam a achar que maucaratismo é o que prevalece nas sociedades. Os bons parecem ser exceção. Da minha parte, penso que maucaratismo é côngenito e não admite retífica.
Há personagens que nos fazem meditar sobre as regras sociais existentes. A Teresa Cristina da novela Fina Estampa consegue, por si só, fornecer argumento para a derrubada da lei Maria da Penha (com a qual já não simpatizo). Se houver muitas mulheres semelhantes a ela, até um pouquinho só semelhantes, cai por terra essa estória de que as mulheres são umas coitadinhas. Olha, tem mulher por aí que eu preferia marcar o Pelé, de muletas (ele, é claro!) do que conviver com ela. Vou desviar um pouco do tema, para discutir a tal lei. Abre parêntesis: se eu espanco minha mulher e ela vai à delegada queixar-se, a delegada me chama e me pergunta (muitas vezes, agressiva): o senhor não tem vergonha de bater na sua mulher? Mas se a minha mulher me bate (e muitas batem ou fazem coisa "mais pior" - salve, Stanislaw Ponte Preta), e se eu for ao delegado, ele irá me perguntar: você não tem vergonha de apanhar da sua mulher não? Machismo costuma ser uma via de mão dupla. Fecha parêntesis.
O que acho mais significativo, na mesma novela, é a questão da reprodução assistida. Vejam a bronca que deu. Mas tem uns poréns. A médica - evidenciada a falta ética - pressionou a mãe biológica, dizendo que a mesma havia assinado um contrato, que a impedia de qualquer medida. Infelizmente, isto acontece muito, em vários atos da nossa vida. Ninguém ensina as pessoas a reagir. Um contrato vale para as duas partes. Uma sujou, a outra está liberada. Pelo menos para encarar a discussão e não se deixar constranger nem atemorizar. Verdade é que a doadora de óvulo não poderia saber quem seria o pai biológico. Mas a médica, igualmente, não poderia. Disporia de características biológicas. Vamos além. Todas as pessoas que se dispuserem a participar de reprodução assistida haverão de ter em mente que a grande capacidade de um médico não exclui a possibilidade de ele cair em tentação e praticar atos até criminosos. Isto tem acontecido e há casos divulgados pela imprensa e decididos pela justiça, incluindo um de alcance internacional.
A novela está mostrando apenas algumas das conseqüências possíveis: a mãe biológica está desesperada para ter a criança. A mãe que a gerou não quer perdê-la. A solução dependerá de um juiz, provavelmente (no caso da novela, porque o Aguinaldo não me contou o final).
É preciso que quem queira participar, pelo menos saiba que estará correndo riscos.
Volto a louvar Stanislaw Ponte Preta: "Malandro prevenido dorme de botina".

O QUE QUEREM, AFINAL, NOSSOS COMENTARISTAS ESPORTIVOS?

Íniciei este blog falando sobre isto. Perguntei como ficam os juízes de futebol.
Volto ao assunto.
Na final da Copa Rio de Sub 17, o juiz expulsou um jogador de cada lado. Os dois enfrentaram-se, ostensivamente, sem meias medidas. Imediatamente, o comentarista achou que o juiz fora rigoroso, porque, em se tratando de rapazes, teria bastado uma reprimenda verbal, ou mesmo um cartão amarelo.
Uai! Então, dois jogadores enfrentam-se, cabeça com cabeça, falando um com o outro, portando-se exatamente como dois galinhos de briga, e não podem ser expulsos? O que querem, afinal, nossos comentaristas. Um futebol em que o jogador saiba que poderá ultrapassar os limites da disciplina, e que nada ou quase nada irá acontecer? Distância da disputa saudável? Penso que a atitude dos dois jogadores foi muito além de um ligeiro desentendimento pessoal. Ambos acharam de arbitrar aquele pedacinho do jogo. Cada um deles terá achado - como penso, em razão de episódios parelhos - que pode advertir o adversário. Já vi jogador cavalgando um adversário, que lhe dera um drible, e cotucando-lhe as costas, com o dedo em riste, como se fosse proibido dar dribles e o driblado pudesse admoestar o driblador. Será, finalmente, que os comentaristas querem que a educação esportiva não possa ser transmitida rapazes de tenra idade, pela forma regulamentar?  Aí, não é comentário. É pitaco, é palpite. Penso que jogador em formação tem de ser enquadrado no regulamento, se quisermos que o futebol não fá para a cucuia de vez.
Ontem, assisti ao jogo São Paulo contra o Independente, do Pará, pela Copa do Brasil. Aos 35 minutos do primeiro tempo, o juiz expulsou Fidélis, do Independente, com o segundo cartão amarelo. Lucas avançava pela direita e Fidélis tentou segurá-lo. Lucas segui em direção ao gol e Fidélis empurrou-o, jogando-o ao chão. Pois não é que o comentarista achou rigoroso? Disse que o cartão fora merecido, quando da primeira falta. Mas, naquele caso, não coube. O time do Independente estava "batendo" forte, várias faltas pesadas. O que queria o comentarista? Que o juiz deixasse rolar?
Realmente, não sei o que querem os comentaristas esportivos.

13 de mar de 2012

CONCURSO PARA O SENADO

Mais um vexame em concursos realizados pelo poder público. Mais de dez mil candidatos terão de voltar a fazer prova, por conta da anulação de provas aplicadas em três categorias de cargos.
Se não fosse pela recorrência de problemas – vestibulares, enem, concursos públicos, etc., até que poderia ser tolerado. Os erros acontecem seguidamente e isto tira credibilidade de qualquer administração.
Primeiro que tudo, vamos recorrer ao art. 37 da Constituição da República Federativa do Brasil:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:

Entendo que, quando o Estado terceiriza, está declarando sua incapacidade de fazer. Precisa outorgar a tarefa a um terceiro. Obviamente, isto resulta em algumas diferenças nas circunstâncias da atividade. Vamos lá:
alguns concurseiros” (neologismo é bacana, não é?) reclamam que pagaram R$180,00 pela inscrição. Chama-se taxa de inscrição. A taxa é um tributo relacionado com a prestação de serviço público, que beneficia o próprio contribuinte. A base de cálculo, definida em lei, é relacionada com o custo da atividade prestada pelo Estado.
Se o serviço fosse prestado diretamente pelo Estado, o valor da taxa seria calculado exclusivamente sobre o custo do trabalho realizado para preparar o concurso. Sendo terceirizado, o perfil do valor da taxa muda substancialmente. Teremos, então: custo do serviço + valor do lucro do terceirizado + impostos que o terceiro paga ao Estado para poder prestar o serviço (obviamente, os impostos são repassados aos candidatos, embutidos na taxa). Penso que acaba sendo uma bi tributação, que a instituição do tributo como taxa pretende evitar. Só aí, o contribuinte já está pagando mais do que pagaria, se  Estado fosse eficiente.
Os prejuízos não ficam só nisto, já que cada candidato lesado tem seu modo individual de sentir. Por exemplo: segundo a pbagora (www.pbagora.com.br), um candidato, servidor do MP da União, reclamou que já estava estudando para esse concurso, havia três anos e que até tirou férias para dedicar-se aos estudos. Um outro, também servidor público, do Ministério do Planejamento, disse que, com a anulação, vai aproveitar  e estudar mais inglês, e que reclamar não adianta (Correio, www.correio24horas.com.br). Uma atitude de desencanto em ambos.
Para coroar o furdunço, o Presidente do Senado Federal foi lapidar: a responsabilidade pela anulação de três provas do concurso do Senado é exclusivamente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), contratada para elaborar e aplicar os exames. Bacaninha, Presidente! Então, uma das formas de o Estado safar-se lépido e fagueiro das lambanças havidas em seu quintal é terceirizar. Vão reclamar da terceirizada, "oriessa"! Simples, não? Parece que Sua Excelência obra em equívoco grave. A atividade é do Estado e a terceirização não lhe tira responsabilidade. Só aumenta porque, além de supervisionar e controlar a atividade, se a exercesse diretamente, passa a ter de controlar e fiscalizar a terceirizada que contratou. Afinal, escolheu a terceirizada para praticar uma atividade pela qual é responsável.
Nem me venham dizer que o erro atingiu “apenas” três categorias de candidatos. O que nos garante que, no demais, a execução merece credibilidade? A magnitude dos envolvimentos – salários altos, posição social, estabilidade, etc. – sempre ouriça as bichas da cobiça, dos desvios e outros que tais. Desconfianças? Tenho e assumo! E não é de graça, não.
Quando iremos conseguir levar as coisas públicas a sério?

12 de mar de 2012

AMBIENTE: MEIO OU FIM?


Vivemos falando em meio ambiente. Tenho comigo, como idéia central, que ambiente não é meio. É fim. Trocadilho? Pode ser. Mas o tema é que é importante. Vem a propósito da passagem de um ano da tragédia de Fukushima. O que conheço é o que os informativos televisivos e a internet mostram. O bastante para gostar nada dessa fúria de criar desastres. Queremos mais, cada vez mais, precisamos suprir nossas necessidades de energia... Um montão de gente ganhando grana com isto.
Não entendo que os governos decidam "suicidar-nos" a cada dia. São usinas nucleares, é a poluição do ar, das águas, dos nossos pulmões, pelo petróleo. A gente sabe que as pessoas que conhecem os riscos, com mais precisão, estarão protegidas. Não estamos no tempo dos cavaleiros andantes, em que o rei costumava comandar pessoalmente seu exército. Hoje, temos gente que fica só atrás do botãozinho. Longe dos bombardeios, dos tiroteios, dos massacres... Assim fica fácil!
Não estou engajado em movimento algum. Só quero respirar e que meus netos respirem. E que não corram os riscos irresponsáveis que o "progresso" causa. Todo mundo sabe que temos fontes de energias limpas. Mais caras? Cara é a minha vida! Infelizmente, isto não diz nada a um governante. Não se trata de posição contrária a um governante determinado. É um grande bando de interessados, no governo e fora dele. Parece um grande feito para a Nação a conquista do pré sal, por exemplo. Mas qual o custo disto? Já vimos o desastre da plataforma do golfo do México. Já vimos alguns acidentes menores no Brasil, mas com reflexos na vida marinha, por exemplo. E respiramos derivados de petróleo. Mesmo tendo um imenso território que - dizem os engajados - poderia ser usado para mudar o perfil da nossa energia. E sol! Temos sol em todo o país. E vento? Temos, também. Será que não é possível projetar uma vida melhor, para nós também (os outros são exatamente os que decidem essas coisas, mas a vida deles não parece má).
PS.: Mostro uma imagem em que aproveito o nome da Exma. Sra. Presidente, para chamar a atenção. Não para atribuir a responsabilidade somente a ela. Penso até que todos nós temos uma ponta de responsabilidade, por menor que seja. Adoramos o "progresso". Miríades de celulares estão aí a demonstrar isto. No frigir dos ovos, todos os governantes do mundo estão caminhando no mesmo sentido. Claro, encastelados em suas seguranças.

UM GÊNERO QUASE ESQUECIDO






Disse que iria tentar a prática de gêneros que conheci há muito tempo. Acabei apresentando um comentário de versos. Um outro gênero de que minha mãe gostava muito era a quadrinha. Um tanto difícil, porque exige síntese. Aventurei-me algumas vezes. Prefiro começar com uma quadrinha que minha mãe tinha como a melhor que conhecia:


Sino, coração da aldeia.
Coração, sino da gente.
Um a sentir quando bate,
Outro a bater quando sente.

Não resisto e emendo com uma de minha autoria, nos bons tempos:

                                                  Quem da vida faz pagode,
                                                   jovial e folgazão,
                                                   a única coisa que pode
                                                   tirar do bolso é a mão.

11 de mar de 2012

NÃO É PRECISO SER VIOLENTO PARA SER REVOLUCIONÁRIO


Nara Leão teria completado 70 anos, no dia 19 de janeiro deste ano. Hoje, foi a referência do programa Sarau (Chico Pinheiro). Stanislw Ponte Preta (Sérgio Porto) chamou-a Musa da Bossa Nova. Carlos Lyra, participando do programa, disse não concordar com o título. Acha que Nara foi a Música da Bossa Nova, porque cantava e tocava violão. Acrescentou que ela passeou, com sucesso, por vários gêneros. Isabel, sua filha, também esteve presente. Lembraram que, depois de um tempo da doçura da Bossa Nova, Nara, quando foi fazer cinema, passou a participar da arte de protesto contra a ditadura. Por isto, quando casada com Cacá Diegues, "foi morar" em Paris. Chico Pinheiro leu um poema de Carlos Drumond de Andrade, dirigido aos generais, como que pedindo que parassem de incomodar a moça, sugerindo que uma moça tão delicada não poderia estar abalando a revolução.
Impressionei-me com a idéia, lançada à época, de que a Bossa Nova era alienada, que não se envolvia com os problemas sociais.
Não concordo. Nara, com sua doçura, envolveu-se com as idéias de mudança, de discordância da ditadura. Mas a primeira idéia que me veio á mente, no momento, foi de "Desafinado", em que João Gilberto diz: Você com sua música esqueceu o principal / Que no peito dos desafinados / No fundo do peito bate calado / Que no peito dos desafinados / Também bate um coração.
Isto é uma ode à tolerância dos diferentes. Isto já era, naquele tempo, tremendamente revolucionário!

CABEÇA DE CADA UM

Não é propaganda, não, gente! Felizmente, as editoras começam a tratar de artistas, de todas as áreas. Nossa memória era muito pobre. Que eu me lembre, tenho "De Letra e Música", de Billy Blanco, que comprei em um sebo, por valor ínfimo. Billy é um dos ícones da Bossa Nova. Conta, com muita graça, os motivos de suas músicas. Na década de 1960, já cantava a ecologia. Qualquer hora dessas falarei dele. Tenho um Moreira da Silva - O Último dos malandros - de Alexandre Augusto, também comprado em sebo, por coisa parecida com oito reais. Alexandre Augusto é jornalista, nascido em Feira de Santana - BA. Foi graças a uma bolsa de estudos do CNPq e da Construtora Norberto Odebrecht (também não é propaganda, é crédito) que pôde instalar-se no Rio de Janeiro e aprofundar suas pesquisas sobre a vida de Antônio Moreira da Silva (vou falar deste, também em breve). Artista não vendia. As pesquisas tinham de ser financiadas. Parece que a coisa anda melhorando. Estamos com vários livros, no mercado, sobre as vidas de artistas. Muitas vezes contadas pelos próprios, com a participação de jornalistas.
Estou selecionando textos dos livros que estou lendo, para comentar no blog. Já falei do Adoniran Barbosa (pretendo voltar). Agora, vamos ao Lobão:
Pág. 49: "E como não podia sair dos limites do playground, arranjei um meio de invadir um terreno baldio que ficava atrás do prédio e ali inaugurei meu planeta de origem - a Galinaçolândia. Um planeta povoado por galináceos muito distante da terra. Comecei a ter uma paixão irracional por... galinhas! Arrumava uns pintos de um dia na loja da Purina lá em Pedro do Rio e prosseguia na criação alojando os frangotes no banheiro do apartamento em Copacabana. Comecei a me interessar tanto por galinhas que comprei um livro chamado 'Como criar galinhas'. Logo me decepcionei quando percebi que o intento do livro era criar galinhas para corte ou para postura de ovos. Eu desejava ter galinhas como confidentes".
Lobão volta ao assunto na pág. 55: "Foi o auge da minha mania por galinhas. Meus frangos lá no sítio estavam com cinco meses... eram 23 que vingaram e todos me viam como a figura paterna. Quando chegava na área era um tal de frango entrando pela minha camisa, se empoleirando na minha cabeça, se acocorando debaixo do meu braço... Vivia o meu planeta o tempo integral, e quando descia de Pedro do Rio, cantava andando por todo o apartamento o hino do meu planeta, que era o hit do Sérgio Reis, 'Coração de papel'. Passava o dia todo emulando aquele vozeirão do Serjão pelos cantos a cantar: 'Se você pensa que meu coração é de papel... não vá pensando, pois não é... etc.' Até hoje não consigo fazer uma conexão lógica entre as galinhas e a canção, só me lembro que achava tudo muito harmonioso".
Muitas são as conexões, no cérebro (entendo nada disto, cientificamente, mas o meu costuma ser um turbilhão). Achei bacana a conexão da intimidade dos frangos com a imagem de figura paterna. Maluco? Romântico? As duas coisas e mais outras?...