17 de mar de 2012

O CÉU E O INFERNO DO FUTEBOL

Sou apaixonado por futebol - como, de resto, milhões de brasileiros. Nunca fui torcedor fanático. Torcia para o Atlético Mineiro, mas ia ao Mineirão ver o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Piaza, Natal, Raul (por que a gente vai se esquecendo do goleiro, gente? só porque ele, no máximo, empata de 0 x 0?), Zé Carlos, Hilton Oliveira... E, quando jogava com time "estrangeiro", torcia pelo "inimigo" Cruzeiro. Já há algum tempo, assisto a jogos de futebol, mas não torço mais. Há muitos dirigentes na contra mão da ética, muito investimento burro altíssimo (assim como acho difícil torcer pelo Brasil, que vejo em situação parecida).
Podem dizer que é saudosismo de velho. Mas o futebol não é o mesmo de antanho (existe, viu? está esquecido). Ouvi um saudosista dizendo que, atualmente, jogador não "mata" mais a bola. Deixa bater nele, cair a uns três metros na frente e corre atrás. E não é por falta de espaço. Já vi craque "matar" bola, de costas.
Mudou muito, também, o homem jogador. A origem permanece a mesma. Humilde, pobre, sem escolaridade para a condição de ídolo... Há exceções, claro. Dr. "Sócris" era médico; Haroldo, lateral esquerdo do velho Atlético Mineiro, formou-se em medicina; Afonsinho, que jogou no Botafogo, há muito, estudou medicina, formou-se e exerce a medicina.
Uma profissão em que só é necessário saber jogar, para tornar-se ídolo. Injusto? Penso que não. Afinal, o que se pode exigir de um profissional é que saiba exercer a profissão, e que se dedique a ela. A paixão do torcedor leva a atitudes absolutamente incoerentes, relativamente ao "ser amado". Se o seu ídolo quer buscar melhor condição, se há risco de ser transferido, é logo taxado de "mercenário", com conotação pejorativa. Mercenário é quem trabalha por dinheiro. Então, todos somos. Ser profissional, na minha opinião, é viver "de" e "para". De futebol e para o futebol.
Aí é que a porca torce a respeitável caudinha. Viver "de" é ótimo! Viver "para" é que são elas. Toda profissão tem seus "poréns". Médico, advogado, lixeiro, policial... Em tudo há dificuldades que hão que ser enfrentadas, em nome de "viver para".
Na profissão de jogador de futebol, o lado "bom" é tão oposto ao lado mau, que alguns acabam entortando a profissão. A idolatria, as "marias chuteiras", os convites para baladas (depois, quem convidou reclama que o jogador está jogando mal porque é farrista), a grana da publicidade, tudo isto oferece ao jogador um modo de vida que é atrapalhado pela necessidade do "para": treinar, concentrar-se, alimentar-se bem, evitar bebidas alcoólicas e outros "estimulantes". Sexo eu não sei. O Romário falava que não bebia, não fumava, não dava, nem usava droga. Que seu negócio era sexo e que isto não atrapalhava. A realidade mostrava que, já antes do final da carreira, Romário apresentava-se mal, fisicamente, algumas vezes. Noitada, mesmo que só de sexo, cansa.
Um dos fatores determinantes de entortar a carreira é o valor dos salários. Em clube grande, só se houve falar em pelo menos centenas de milhares de reais. Uma pessoa disse-me, certa vez, que o Ronaldo ("Fenônimo", como disse um torcedor, abordado por repórter) ganhava demais. Achei que não. Disse a ela: você vende seu trabalho para uma pessoa de cada vez; o Ronaldo vende cada gol para milhões de pessoas, ao mesmo tempo, no momento em que o faz, e para outro tanto, nas matérias televisivas, no mundo inteiro. Penso não ser justo as marcas patrocinadoras faturarem a grana de grande parte dos torcedores, sem remunerar o objeto de paixão.
Ocorre que a vida "com muito" é um convite aos execessos, ao exibicionismo, e quejandos. Esses fatores são os que levam o jogador de futebol, ao mesmo tempo, ao céu e ao inferno. Temos vários exemplos por aí. Mas vou citar aquele que poderia ter estado no mesmo patamar do Pelé (muitos acham que está): Garrincha. Acho que, se tivesse levado vida regrada (não precisava ser de santo), teria estado, sim, no nível do Pelé. Tecnicamente, penso que esteve. Fez vários milionários, transferidos para outros países: Vavá, Paulo Valentim, Dino, Gino... Eram bons, todos eles. Mas tinham um ponta que os deixava na cara do gol. Garrincha foi decisivo, como Pelé, na Copa de 58. Foi quase que isoladamente decisivo, na Copa de 62, depois que Pelé saiu machucado. Fez gol até de cabeça e de falta (não eram sua especialidade, já que a vocação era de garçon). Garrincha - dizem muitos autores - levou vida desregrada. Muito chegado a um rabo de saia e à "marvadeza". Isto abalou fortemente sua saúde. Morreu pobre, com a solidariedade de uns poucos amigos e admiradores.
As "escolinhas" de futebol poderiam orientar aqueles que só vêem no futebol a galinha dos ovos de ouro, mas não vêem os gambás rondando.