28 de mar de 2012

MILLÔR FERNANDES

Falei em Millôr hoje, pela manhã, antes de saber da notícia de sua morte. Conversava com um amigo, sobre a existência de pessoas que se referem a determinados fatos ou determinadas organizações, sem conhecer os fatos ou as organizações, e não vão buscar informações pertinentes. Falam como se soubessem de tudo. Lembrei-me de que Millôr criticava o dístico da Bandeira do Estado de Minas Gerais: Libertas quae sera tamen. Falava do texto, tirado de um poema de Virgílio

"Libertas, quae sera tamen, respexit inertem,"

dizendo que, na Bandeira, deveria ser apenas libertas quae sera, e que, portanto sobrava a expressão tamen que, segundo Millôr, significava "todavia". Não vou descer a detalhes, porque não sou latinista. Quem quiser mais detalhes veja na página http://pt.wikipedia.org/wiki/Liberdade_ainda_que_tardia 
(bacaninha o método da globo de sonegar notícia e mandar a gente para o g1.com). É que há quem discorde de Millôr, porque  Alvarenga Peixoto (propositor do dístico), Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga (que aprovaram a proposta) eram, todos, notáveis latinistas. E há quem concorde com Millôr.
Fato é que Millôr levantou uma baita lebre, de pessoas criativas que acabam entortando a criação. Muito comum, mais do que a gente pensa.
Lembro-me, sempre, de Millôr, porque lia muito o Pif-Paf, não a revista que ele criou, mas uma página dele na revista O Cruzeiro (faz tempoooo....). Dizem que houve pressão da Igreja Católica para que o Millôr fosse dispensado da revista (foi). E que houve dois motivos. Primeiro, a publicação de um poema dele, que começava assim: "Admiro-vos, Senhor, mas não à vossa obra. Que paraíso é esse que tem cobra?". Segundo: Millôr apresentou Pelé vestido com o manto de Nossa Senhora Aparecida, com coroa e tudo. Não vi nisto qualquer ofensa religiosa. Naquele momento, Pelé era um Deus para grande parte dos brasileiros. Fazia até milagre!
Millôr sabia buscar conflitos, vê-se bem. Arranjou um com Zeus - o poderoso deus grego. Conta a lenda que Prometeu, por ter roubado o fogo do Olimpo, foi castigado por Zeus, e acorrentado a um rochedo à beira mar. Todos os dias, vinha um abutre comer um pedaço de seu fígado, que se regenerava. E o abutre voltava e voltava. Millôr comentou que ninguém perguntou ao abutre se gostava de fígado.
Essas coisas repetem-se, de modos diferentes, mas com conotações semelhantes. Vendo TV, programa de "pesca esportiva", um protagonista, logo após devolver o peixe ao rio, comentou que aquela espécie é muito boa para pesca esportiva. Pergunta-se: chamaram o peixe para brincar? Perguntaram se ele gosta daquela brincadeira? Millôr me ensinou algumas coisinhas, sabe?

Foto: R7 Entretenimento (desculpe aí, sô: notícia fúnebre é entretenimento?).
http://entretenimento.r7.com/famosos-e-tv/noticias/morre-jornalista-millor-fernandes-aos-88-anos-20120328.html