28 de jun de 2017

ILAÇÃO / FICÇÃO: MELHOR EXPLICAR A MALA.

ILAÇÃO: Dedução. O que se conclui partindo de inferências e deduções (Dicionário Online de Português). Aquilo que se conclui de certos fatos; dedução, conclusão. (Aurélio).
FICÇÃO: Criação da imaginação; invenção fabulosa (Dicionário Online de Português); 1. ato ou efeito de fingir. fingimento. 2. Coisa imaginária, invenção. (Aurélio).
O presidente Temer fez a ilação dele, com base em alguns fatos conhecidos, ou que disse terem existido, ainda não demonstrados, pelo menos: ex-procurador da "mais estrita confiança" (repetiu as próprias palavras gravadas por Joesley) de Janot foi trabalhar para a empresa do delator, recebeu milhões, sem ter passado por "quarentena". Ilação de Temer: os milhões de honorários poderão não ter sido destinados apenas ao ex-procurador. Quase "cardosiano" o raciocínio (chamo de cardosiano - e não de cartesiano - o exercício de lógica atribuído a Newton Cartoso, no respectivo anedotário (não dá para descever agora, é um pouco longo). Cardosiano porque assenta-se em uma possibilidade, sem efetiva ligação com outros fatos.
De "sem-pulo", o presidente emenda que a peça acusatória é uma ficção, sem qualquer prova. No entanto, a existência de simples indícios justifica a abertura de ação penal. A condenação irá depender da comprovação dos indícios.
Mas vamos raciocinar, como teria dito o general: não foi negada pelo presidente a visita de Joesley ao Jaburu, à noite, sem identificar-se, circunstância que foi aprovada pelo presidente, conforme a gravação. Nem foi negada qualquer das expressões proferidas por Temer e gravadas por Joesley. Ataca-se a gravação, não o que foi gravado. 
Afirma Temer que não há a mais mínima prova do recebimento do dinheiro por ele. Verdade, porque o dinheiro foi devolvido por Rodrigo Loures, parcialmente primeiro, e recompletado depois, em Juízo (documentado, portanto). A gravação daquela corridinha esperta de Rodrigo Loures com a mala, em uma pizzaria (repito, tinha de ser uma pizzaria) não passava de uma gravação externa de cena do filme que está sendo produzido - "Eu quero amá-la" - cena que serve apenas a criar um execrável trocadilho com o nome do filme, e no qual Rodrigo Loures é reles figurante, não se sabendo ao certo - explicitamente, pelo menos - quem é o diretor.
A primeira explicação de Temer, sobre a conversa com Joesley, de que tratavam da operação carne fraca, esboroou-se, já que referida operação só eclodiu cerca de dez dias depois. Depois veio o jatinho para Comandatuba. Temer negou, para admitir depois, só que "sem conhecer o proprietário do avião".
Temos, portanto, que tanto no papo sobre operação carne fraca como ou outro, sobre o avião desconhecido, Temer negaceou. Viraram ficção, um e outro fatos.
Sigamos para ilação. É claro que o exercício de lógica de Temer poderá não ser descartado de plano, quanto à possibilidade de um ex-procurador, agora empregado de empresa, engendrar uma delação premiada envolvendo condições muito favoráveis ao delator, por obra da PGR (leia-se "Rodrigo Janot"), com honorários altíssimos para serem divididos com o ex-chefe. Mas faltam a esse exercício de lógica muitos elementos fáticos para chegar a constituir um simples indícios. Mera ilação do presidente, com parcos ingredientes.
Passemos ao diálogo Temer - Joesley: um empresário (ora o maior produtor de proteínas do mundo, ora um falastrão, ora desqualificado completamente, um bandido...) penetra no Palácio do Jaburu, após as 22 horas, sem declinar sua identidade, e conversa com o presidente da República, abordando assuntos que relatam a prática de irregularidades, improbidades e crimes. Ali, o presidente indica-lhe o contato de Rodrigo Loures, desaconselhado que estava o contato Gedel. Perguntado por Joesley se podia tratar de tudo com Loures, o presidente responde: "tudo" (ainda não se conseguiu desqualificar a gravação, objetivamente). Aí vem o episódio da mala (não a do filme). A devolução do valor que fora relatado em outra gravação. A versão desencontrada do motivo do encontro (primeiro ficção, eufemismo de mentira, sem retificação). O negaceio quanto ao jatinho para Comandatuba. As flores. Esses os ingredientes.
O que pensar? O que eu quiser (pois Temer não está dizendo que pode pensar o que quiser?). Repito Millôr: "livre pensar é só pensar".
Pois bem: diante de um encontro entre duas pessoas, ocorrido fora de agenda, tarde da noite e sem testemunhas, com mentira sobre o assunto tratado, sem posterior retificação, posso pensar o que quiser, desde que não seja incompatível com os fatos conhecidos. No meu raciocínio, pode transitar desde um encontro romântico indeclarável até uma conspiração. Acho melhor explicar a mala.
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