11 de fev de 2012

WANDO - O MARKETEIRO DA VERDADE

Wando faleceu em fevereiro de 2012Sempre achei que o Wando extrapolou. Em "Moça", já se mostrava bastante vanguarda, em relação a explicitar o que se pretende de uma mulher: "me enrolar nos teus cabelos, abraçar teu corpo inteiro, morrer de amor, de amor me perder". "Em Deixa eu Te Amar", avançou mais um pouquinho. Daí, não parou mais. Por que achei que Wando extrapolou? Porque em "Emoções" ("...te agasalhei nos braços, pele, mãos, espaços, acariciei. Te amei suavemente e, tão docemente, eu me fiz teu rei"), Wando conseguiu ser - para mim - de um erotismo exacerbado, absolutamente romântico. Mas esse não era o limite de Wando. Queria escrachar erotismo, partiu para "Fogo e Paixão", "Safada", "Obceno", sempre na ânsia de analisar "Toda Mulher". Chegou a uma aparentemente herética "Nossa Senhora das Fêmeas" - mais do que uma ode à Lei Maria da Penha. Marketeiro de verdade e Marketeiro da Verdade: vendia o que as mulheres, desesperadamente, queriam comprar. Produzia e vendia o que elas queriam. Disse, há alguns dias, que sou o anti publicitário. Ao mesmo tempo em que admiro a publicidade brasileira, rica em criatividade, graça, sensibilidade, faço sérias restrições a um tipo de publicidade diferente, sem compromisso com a verdade, muitas vezes nem com a decência. Fala-se muito em ética na publicidade. Não vejo isto sempre. Por exemplo: a maioria das peças publicitárias para automóveis exibe a potência e a velocidade do veículo. Na mesma peça, quase sempre, a hipocrisia: "Se beber, não dirija" ou "respeite as leis de trânsito" (muitas das peças são um estímulo ao desrespeito às tais leis de trânsito). Não fico só aí: há alguns dias, foi veiculada uma campanha, parece que de uma associação de publicitários cá da minha terra. "ANUNCIE O NADA E VENDA TUDO". Me vi chamado de idiota!
Volto ao Wando: só agora, após a sua morte, consegui classificar o Wando como o Marketeiro da Verdade. Se o leitor se der o trabalho de ler "Tem Até Turbo?", que postei em 27 de janeiro, verá que, há muitos anos, a gente nunca via uma mulher comprando uma calcinha, porque faziam isto bem escondidinhas, num canto de loja. No dia do velório do Wando, vi senhoras - inclusive uma que devia estar com seus sessenta anos ou mais um pouquinho - empunhando e até brandindo calcinhas, em homenagem ao artista. Entendi, então, que, durante toda a sua vida artística, Wando produziu e vendeu exatamente o que as consumidoras queriam - e precisavam muito - comprar explícitamente, sem falsos pudores, sem restrições, sem censura. Admirei o Wando muito mais!
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