26 de abr de 2012

DICRÓ - O ÚLTIMO DOS MALANDROS IN CONCERT


Malandro é malandro,
mané é mané!
Dicró foi a personificação
do malandro.
Conheci Dicró na década de 1970, quando morava em Belo Horizonte. Meu amigo Toti apareceu em minha casa, levando uma fita cassete. "É a sua cara", disse. Acho que é mesmo. Sempre gostei de músicas alegres e engraçadas. Acabei conseguindo um vinil do Dicró. E mantive um relacionamento musical com ele, durante muito tempo. Sem qualquer contato pessoal. Conheço uma boa parte da obra e sempre achei graça em suas aparições na TV, sempre com muito bom humor. Nada produzido. Era sempre o próprio. Uma das mais engraçadas foi quando morreu Bezerra da Silva. Foi num dia 17 de janeiro Não me interessam muito as datas, mas os fatos; nesse dia, a data foi importante. No velório, com aquela cara sacana que o caracterizava, Dicró falou: "Olha aí! Esse crioulo é 1-7-1 mesmo! Morrer logo hoje! 17 de janeiro" (17 do 1 - verdadeiro 171).
Pois morreu ontem o último dos malandros in concert. Três Malandros In Concert foi o título do album em que contravocalizam Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró. Os dois primeiros já foram bater continência para Noel.
Se é verdade o que o Billy Blanco disse em seu samba "Prece de um Sambista" (colhido no livro "Tirando de Letra e Música", do Billy),



Quando morre um sambista,
no céu é motivo de festa,
pois os anjos que são da seresta
se alegram também.
E em meio de tanta alegria,
todo o Céu se transforma em terreiro,
os clarins dão lugar ao pandeiro
que marca a chegada de alguém.


Vai por aí, exaltando o Noel que, tendo chegado primeiro, é o chefe do santo terreiro de Nosso Senhor.
Dicró já está lá. Saravá, Dicró!
Não posso deixar de transcrever, de memória, a primeira música dele, que aprendi. Chama-se "Joãozinho E Sua História". Vamos nesta:

Novamente Joãozinho repetiu o ano
Sobre história do Brasil
Só disse besteira
E entrou pelo cano

Disse que Pedro Cabral
Rezou a primeira missa
E Pero Vaz de Caminha
Não quis molho no pão com linguiça
Que Anchieta morava na Penha
E era cabo da marinha
Quanto ao rei Dom Manoel
Tinha um carro de praça
E criava galinha

Novamente Joãozinho repetiu o ano
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Tiradentes era protético
E por isso foi em cana
Protestou contra a pimenta
contra a gasolina e o angú à baiana
Depois deixou que a Lei Áurea
Fosse assinada pela Marta Rocha
Pedro II pintava parede
Passava o dia agarrado na brocha

Novamente Joãozinho repetiu o ano
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Ele disse que "Zé" do Patrocínio
Não perdia um jogo no Maracanã
Desfilava na Mangueira
E de Aracy de Almeida era fã
Ari Barroso fez independência
E Tamandaré foi ser beque do Vasco
Rui Barbosa comprava cerveja
Bancava o esquecido e ficava com o casco

Novamente Joãozinho repetiu o ano
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Foto: A Tela da Reflexão.