10 de jun de 2015

NÃO TINHA VISTO A CHAMADA ANTES DO JOGO CONTRA A ALEMANHA

Não sei por que não tinha visto, já que minha mulher assina a Veja (sou carona) e a chamada foi na capa dessa revista. Encontrei-a, há poucos dias, em um salão de barbeiro. Ali estava em "manchete":




"É DAVID CONTRA A ALEMANHA". Em letras menores: "O herói da classificação é focado, explosivo e incansável, virtudes de que a seleção precisa para vencer os alemães e o jogo final mesmo sem Neymar."

Em letras vermelhas destacadas:


"AGORA É NA RAÇA!"

Para mim, a mensagem valia como "não tem Neymar, não tem técnica; só raça".
Lembrei-me de antecedente, da Olimpíada em Londres, 2012. O cadikim lançou uma dúvida séria: "E se Neymar tiver um piriri?" (http://cadikimdicadacoisa.blogspot.com.br/2012/07/e-se-neymar-tiver-um-piriri.html). A mesma revista estampava, em sua capa, uma foto de Neymar, coberto com o barrete da guarda da Rainha. A chamada era:


"FUTEBOL Neymar, a esperança da medalha de ouro que nunca veio."

(ou o cadikim equivocou-se ao transcrever, na publicação citada (sem perder o sentido), ou transcreveu de texto interno; não há como verificar).
A seleção brasileira ainda ficou parada na prata. Neymar não passou de esperança, injustificada esperança em um homem só.
Às vésperas da semifinal da Copa de 2014, no Brasil, a revista Veja voltou a destacar um atleta dos demais, escalando-o para ser esperança, já que Neymar, atropelado pelo colombiano Zúñiga, estava impossibilitado de jogar. Pior: lançou, em matéria de capa, "David contra a Alemanha". Como se a seleção brasileira não precisasse de mais do que um craque para acabar com os alemães.
Não queria dizer: "deu no que deu". Mas sou forçado a dizer, principalmente que o "solitário craque" não conseguiu evitar qualquer dos sete gols. Muito triste!
A seleção prepara-se para a Copa América. Neymar chegou pouco atrasado mas chegou. E é o destaque.
Algo contra Neymar ou contra David Luiz? Absolutamente. Absolutamente contrário aos destaques individuais, já que há uma comissão técnica, um elenco que deve estar entre o que temos de melhor. Lembro-me de que a seleção brasileira, na Copa de 1962, ficou sem Pelé - já famoso e campeão da Copa anterior. Mas tinha Amarildo. E, de quebra, Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá e Zagalo. É pouco, ou quer mais? Pois vamos lá: Castilho, Jair Marinho, Bellini, Jurandir, Altair, Zequinha, Mengálvio, Jair da Costa, Coutinho e Pepe.
Li, após aquela Copa, que Paulo Amaral deu orientações encorajadoras a Amarildo e chamou-o à atenção para abusos de adversários, para que não reagisse, porque a seleção poderia ficar com um a menos (Amarildo - Possesso, como o qualificou Nelson Rodrigues, era genioso). Amarildo portou-se muito bem, foi muito valente e senhor de si, fez gols, e a seleção brasileira ficou campeã, apesar da ausência de Pelé.
Penso que o raciocínio de Paulo Amaral é o que deve ser seguido: encorajar todos os jogadores, reservas inclusive, atribuindo-lhes condições morais de superar dificuldades ("superação" é a palavra da moda). Penso que escalar um craque como responsável ("David contra a Alemanha") atribui a esse craque uma responsabilidade que não tem como assumir sozinho, e pode baixar o moral dos demais jogadores.
A Copa América está aí. Prefiro sem herói individual.


Foto: Capa da revista "Veja", edição 2.381, de 9 de julho de 2014 (editada apenas para dar legibilidade à chamada em destaque).